Um poema de Wislawa Szymborska

Gaby Haviaras lê “Filhos da época”, da polonesa Wislawa Szymborska (Reprodução: Youtube)

Somos filhos da época
e a época é política.

Todas as tuas, nossas, vossas coisas
diurnas e noturnas,
são coisas políticas.

Querendo ou não querendo,
teus genes têm um passado político,
tua pele, um matiz político,
teus olhos, um aspecto político.

O que você diz tem ressonância,
o que silencia tem um eco
de um jeito ou de outro político.

Até caminhando e cantando a canção
você dá passos políticos
sobre um solo político.

Versos apolíticos também são políticos,
e no alto a lua ilumina
com um brilho já pouco lunar.
Ser ou não ser, eis a questão.

Qual questão, me dirão.
Uma questão política.

Não precisa nem mesmo ser gente
para ter significado político.
Basta ser petróleo bruto,
ração concentrada ou matéria reciclável.
Ou mesa de conferência cuja forma
se discutia por meses a fio:
deve-se arbitrar sobre a vida e a morte
numa mesa redonda ou quadrada.

Enquanto isso matavam-se os homens,
morriam os animais,
ardiam as casas,
ficavam ermos os campos,
como em épocas passadas
e menos políticas.

O vizinho de Mônaco

Na primeira vez vez que contei essa história, chamei ela de “A porta”. Essa, no entanto, não é A porta, e sim apenas uma porta.

Quando entrei no elevador e vi aquele homem e 40 e poucos, talvez 50 anos, eu já imaginei que ele fosse de fora. De Mônaco*, ele disse, com sotaque afetado, e contou que tinha outro apartamento no bairro, em um prédio com aluguel pelo menos 3x maior do que o meu – sem contar o condomínio. Fiquei pensando qual seria o nome da naturalidade de quem é de Mônaco, e sobre as peculiaridades do paiseco.

Ele era calvo, tinha uma esposa jovem e mal humorada e, antes de ter uma cara, já causava problemas cotidianos aqui em casa. A obra para reformar o apartamento, que duraria um mês, acabou durou três, e depois mais uma semana, que se tornou pelo menos quatro, com auxiliares de obra que escutavam o pior da música regional no volume 32 enquanto eu tentava escrever para pagar contas. A porta ainda não havia sido colocada, mas quando foi, eles a deixavam aberta até que eu reclamasse com jeitinho, implorando pelo silêncio a fim de terminar um trabalho atrasado.

Quando finalmente se mudaram e ouvi o choro do bebê às seis da manhã, tinha entendido que, apesar do condômino pertencer a um principado, nossa relação como vizinhos seria bem brasileira. Imaginei um cortiço e gritos em diversas línguas, algo que um norte-americano qualquer chamaria de latino. No entanto, eu nunca gritava de verdade, de modo que já fui medindo palavras por medo de que fizesse algo com a cadela enquanto eu trabalhava, algo bem nosso, tupiniquim, mas que ele poderia ter aprendido com a mulher jovem que gritava.

Foram aniversários e jantares e jogos de futebol e música desde aquele dia da mudança — em que eles atrapalharam a entrada no elevador com um móvel muito alto que impedia também que as luzes se acendessem — , todos de porta aberta. Dali em diante, eu só pensava na porta.

Eu pensei em maneiras de gradear a porta, tinha fantasias com pedaços de chumbo que impedissem a passagem do som e rezava para que ele percebesse que não tinha por que estar em um prédio com paredes e gente tão velha podendo morar naquele residencial sensacional logo ao lado, que também era seu, dissera. Ora, eu e meu companheiro, além de um jovem professor de história com expressão melancólica, éramos o único respiro no imóvel, os últimos suspiros de juventude em meio às famílias que brigavam por décadas, todas no mesmo pedaço de terra, por uma despensa ou vaga na garagem.

Eu amanhecia olhando para a porta, pouco depois de ouvir o choro da criança, e tinha verdadeiro horror ao barulho de televisão que a porta deixava escapar. Olhava para a minha porta com verdadeiro carinho, a única divisória entre nós e eles, entre a cadela e o veneno, o resquício de sanidade que impedia a programação da NET de chegar à minha sala, antes tão pacata, fechada, à prova de som. Sempre me gabara do silêncio e das portas grossas, que não deixavam que a música atrapalhasse os vizinhos quando recebíamos amigos, e que, portanto, deveria ser enaltecida sempre que possível. Nós temos cupins, vizinhos difíceis, condomínio alto, mas uma coisa é certa: são belas as portas, e como cumprem seu papel.

Uma noite não aguentei mais e atravessei o corredor para, de pijamas e com ar de desespero, falar sobre a porta. Implorar que usassem a porta. Explicar a importância da porta em uma construção arquitetônica, falar sobre o esmero com o qual foi construída a porta, aquilo que nos tornava uma comunidade civilizada e não um bando de animais a se engalfinhar atrás da mesma presa.

Ele rebateu: disse que a porta deixava o som escapar, mas a cadela latia, e a mulher bradou que a porta seguiria aberta, enquanto minha vontade era de desenhar um organograma na parede explicando que cadelas latem e portas fecham — só consegui, porém, reparar na ausência de móveis na sala e na televisão muito grande e na tranquilidade do resto da casa — o bebê devia estar dormindo para nos acordar às cinco.

(Esperava que no fim os móveis se transformassem em uma placa de “vende-se” ou “aluga-se”, e aguentaria com boa vontade as novas obras, servindo doces e limonadas para os trabalhadores da obra, ansiosa por vizinhos que valorizassem as portas como eu).

Engasguei com a falta de educação — onde estariam os modos ensinados pela monarquia? -, balbuciei algumas palavras sobre a utilidade da porta e as cordas vocais de cachorros, que estão ali para funcionar, tais como a porta, andei dois metros e entrei em casa derrotada, a pensar sobre a porta, sobre a cadela, sobre como devem ser curiosas as habitações completamente abertas de Mônaco.

Ao tentar voltar ao trabalho, me distraí descobrindo que o gentílico do principado se chamava monegasco — informação tão inútil para minha pesquisa quanto a porta da frente, de onde vinham vozes muito altas e o som de algum canal incluso na grade de programação da NET.

Horas depois, viria o bebê.

*Contei essa história originalmente no Medium, em 18 de novembro de 2018. Na época, o vizinho que me incomodava era o do apartamento da frente, mas poucos meses depois ele se mudou. Eu estaria extremamente feliz com isso, não fosse uma pandemia global, seis meses de isolamento social (até agora) e uma nova vizinha, dessa vez do apartamento de cima, a me infernizar. Essa diz que o barulho que ouvimos das 7h às 4h é assombração. Talvez seja, mas deixemos os fantasmas para outro dia.

De quando não entrevistei Gal Costa

O nome dela é extremamente Gal

No último sábado foi aniversário de Gal, a cantora, a mulher terrível, a mulher linda. Sempre que falam dela, lembro de um festival que estava cobrindo como repórter e tinha o show “Estratosférica” na programação.

A equipe de repórteres do festival tinha uma escala pra cobrir todos os shows, exposições, mostras de cinema, peças de teatro. Eu, como freela, não costumava pedir pra cobrir nada em especial. Não me achava no direito, né? Achava que esse show ia ficar com algum repórter da casa.

(Acabou que, nos dois anos que trabalhei nesse festival, cobri MUITA coisa legal – entrevistei Nação Zumbi, minha banda favorita, Larissa Luz, Karina Buhr, Di Melo… e ainda conheci muitos artistas incríveis de outras áreas.)

Pois bem: chegou o dia do show e me disseram que eu entrevistaria Gal. Como repórter recém-chegada no meio “cultural” – completamente novinha no rolê, ainda nem tinha diploma – fiquei animadíssima! Lara, uma amiga muito mais fã de Gal que eu, me ajudou a escolher o look pra ver a musa: um vestido de poás dela, blazer e coturnos pretos meus. Ela me proibiu de ir “de qualquer jeito”, e eu achei que ela estava correta. Era uma certa ocasião.

O lance é que o festival em questão era o Festival de Inverno de Garanhuns, então na madrugada, quando ia rolar o show, fazia uns bons 10-12 graus, e ainda chovia MUITO. E eu lá, com os cambito de fora, já desacostumada ao frio da minha terrinha depois de ter ido morar na Paraíba (não, não faz frio em Campina Grande. Eles só acham que faz).

Nesse dia pensei bem no que ia perguntar, dei uma boa escutada no álbum. Não queria sair fazendo questionamentos bobos tipo Como você se sente estando aqui hoje?. Ela é a GAL COSTA, né? Por favor. A gente que estava sentindo coisas por ela estar lá.

Fiquei na chuva pra acompanhar o show direitinho – e foi incrível. Depois, na hora da entrevista, todos os repórteres e fotógrafos reunidos no backstage, descobri que ela tinha pedido pra instalar uma rampa do outro lado do palco, onde não tinha nada originalmente, para que ela passasse sozinha.

Quer dizer: nenhum repórter conseguiu entrevista. Nem eu, que trabalhava pelo órgão que realizava e custeava o festival. Não havia regalia nenhuma; só vi Gal no palco. O texto sobre o show só saiu porque consegui vê-lo e senti-lo como espectadora, mas sem uma aspinha da mulher.

Lembro que comecei a escrever a matéria, ainda meio deslumbrada, com a seguinte frase: há muitas Graças, mas só uma Gal. Piegas como tinha que ser.

No dia seguinte, amanheci meio doente. na outra semana, descobri que aquela noite tinha me rendido uma pneumonia. Por essas e outras acho esse vídeo do Tom Zé tão maravilhoso. Eu chego pra ver ela e não vejo ela, e me arrebato por ela, e me arrebento por ela, me desarrumo por ela. Pego uma pneumonia por ela. O nome dela é Gal demais.

De quando li O Teatro de Sombras, do Lourenço Mutarelli

“Sinto-me melhor, embora eu saiba que não é verdade”

Há alguns anos, provavelmente após ler algum dos romances mais recentes escritos pelo Lourenço Mutarelli — um dos meus escritores favoritos— resolvi comprar essa coletânea de cinco peças de teatro, escritas por ele entre 2004 e 2007, para conhecer uma outra face do autor.

Nesse livro, é possível perceber perceber alguns temas que virão a se repetir em muitos de seus romances, de alguma forma: o apreço pelo inquieto, pelo feio e pelo não-dito, diálogos e situações atípicas que exploram o pior das relações humanas, um desconforto pelo simples fato de existir que só poderia ter forte influência kafkiana. A edição da Devir, de 2007, possui muitos erros que me incomodaram, mas que quase combinam com um Lourenço que ainda ia amadurecer muito o seu jeito de escrever.

Minhas duas peças preferidas, O que você foi quando era criança? e Mau olhado, são também as duas primeiras do livro, o que fez com que eu sentisse que eu deveria tê-lo lido ao inverso para ter uma experiência de satisfação crescente. A primeira narra um encontro entre primos de classes sociais e aspirações distintas e seus colegas durante uma epidemia de gripe (vejam só vocês); a segunda, a relação complexa e cheia de mágoas entre uma mulher que está se divorciando e sua mãe.

“Os distúrbios existem, naturalmente. Há sempre uma pedra lançada sobre a calma superfície do lago. Mas não há nada que não seja natural”

Ao narrar as desavenças entre grupos de pessoas em situações-limite — colegas, amigos, familiares, completos estranhos — , Mutarelli nos mostra que todos os laços humanos, ainda que intocados por hierarquias institucionais, são mediados por níveis diferentes de poder.

Ler todas as peças de madrugada, durante a espécie de fim do mundo em que estamos, só acentuou o incômodo que elas causam propositalmente. Recomendo principalmente para quem teve pouco contato com os livros do autor; deve ser interessante acompanhar sua evolução na escrita cronologicamente. Com exceção da ordem original das peças na coletânea, claro.

Detox de dados

O quarto onde eu escrevia há uns 10 anos. Eu sei, eu sei: básica.

Pandemia.

De acordo com meus cálculos, que não são excelentes, hoje é o meu 136º dia em casa, com exceção a uma ida ao veterinário e um pulo no jornal ontem – justamente para assinar um contrato que estipula que eu ficarei ainda mais dias em casa, sem prazo para retorno. Enquanto as pessoas já desistiram de fazer pães, videochamadas e assistir lives, voltando aos bares e praias de rotina, eu comecei a fazer uma coisa ou outra somente agora, e dentro de casa. Afinal, mesmo uma pessoa caseira como eu poder ficar um pouco agitada após quatro meses e meio de reclusão apenas assistindo Modern Family e dormindo.

Aí entra o lance do detox.

Depois de mais ou menos 100 dias de quarentena, decidi que se não iria testar receitas, fazer exercícios ou tomar dez banhos diários apesar do calor, eu iria me dedicar a estudar um pouco. Foi aí que encontrei um curso sobre mídias sociais e jornalismo – bem curtinho, duração ideal para uma pessoa com zero comprometimento consigo mesma – com a participação de jornalistas que admiro e especialistas que não conheço sobre segurança digital e detox de dados.

Basicamente, o curso tinha o intuito de nos ensinar técnicas pra ficar relax se, em meio ao fim do mundo, por puro tédio e ignorância do algoz, um de nós virar alvo de algum tipo robô incel no Twitter. Ou se as nossas fotos forem utilizadas tal qual o rosto de João Doria naquele vídeo um tanto quanto controverso. Ou, se possível, sei lá, só dar uns avisos pra gente evitar se expor demais na internet mesmo, já que nunca fomos tão odiados.

Acontece que a internet como conhecemos começou quando eu tinha 10 ou 11 anos, mesmo que ainda não houvesse Instagram ou Facebook. Foi nessa época que minha mãe levou um computador pra casa e me deixou usá-lo por algumas horas semanais, com a condição de eu manter notas razoáveis no colégio. É claro que eu me exponho demais. Eu vivi o Orkut, o Fotolog e infelizmente o Facebook, quando ele ainda respirava normalmente.

Daí lá fui eu atrás de mapear todas as contas em todas as redes sociais que fiz ao longo dos últimos 15 anos, morrendo de vergonha e sem muito sucesso em tentar deletar algumas das esquecidas. A sorte é que na época eu só usava sobrenome falso, fotos que escondiam meu rosto, não tinha tatuagens e cultivava poucos contatos online. Praticamente um robô também, se você parar pra pensar.

E aí eu lembrei dos meus blogs. Reli, com um misto de nervoso e carinho, alguns textos que escrevi quando ser jornalista era apenas um sonho (e não uma dor de cabeça + ansiedade constante). Por sorte, a minha ausência de autoestima nunca permitiu que eu divulgasse muito nenhum deles, e desde aquela época eu buscava me camuflar em meio à blogosfera para que nenhum parente ou amigo descobrisse que eu gostava de fazer umas piadas em uns textos com lição de moral e explícita influência dos cronistas da revista Capricho.

Desde que eu entrei na faculdade de jornalismo, há quase uma década, escrever virou obrigação, sinônimo de dinheiro, sim, mas também de pressão, preguiça, uma série de coisas – mas não tanto de prazer, e por isso os projetos de blog que eu tinha iam morrendo junto a qualquer tipo de afeição que eu tinha por escrever de verdade. Até o último deles, que de uma só vez passou por censura de uma chefe, me arranjou um estágio e fez uns amigos darem uns tapinhas nas costas já era. Ainda bem. Talvez.

Tá, o afeto ainda existia. Mas não existia coragem, apego. Não havia mais aquela necessidade adolescente de escrever sobre o mundo, já que eu o via tão pouco, ou tinha contato apenas com o que meu emprego queria que eu visse.

Depois veio o tal do Medium, cheio de hype e praticidade pra quem, como eu, já não tinha mais como contatar amigos da blogosfera para fazer um layout meio cafona meio legal para o seu blog. Que tristeza essa modalidade, aliás. Com ela, veio o blog por aplicativo, e o termo “blogueira”, coitado, virou sinônimo de fazer selfie e publi.

(E imagina se sai algo de bom de um texto escrito num app. Que grosseria.)

Pode ser só o saudosismo da quarentena, mas ainda que eu tenha uma conta – também escondida, ainda não trabalhamos com autoestima – no Medium, penso que a experiência do blog é diferente e nada a substituiu. Não vou saber te dizer se é pela interface mais amigável e personalizada, porque claramente eu não entendo de interfaces, como você pode ver pelo design daqui (se um dia você chegar aqui. Sério, zero autoestima).

A questão é que aqui há menos chance de esbarrarem na URL que escolhi e em alguns meses eu irei odiar. Aqui eu preciso sentar em uma cadeira, com música baixa, porque quem tá em casa tá dormindo e eu continuo vagando pelos cômodos de madrugada. Há uma semelhança com a pessoa que fui e com a que queria ser há dez anos. Há algum conforto, algo de que muito preciso agora, nos tais tempos de pandemia.

Pensando em compartilhar os textos com alguns amigos mais a frente, pensei até em criar uma newsletter. Daí lembrei de todas as que eu adoro ler e, ainda assim, ficam meses largadas na caixa de e-mail até pararem de fazer sentido e irem pra caixa de entrada. Muito melhor um site escondido que um e-mail na caixa de spam. Pelo amor de deus, talvez haja um pouco de autoestima.

Não que eu devesse estar criando coisas. Aproveitei parte do apocalipse para ler um livro e fazer um curso sobre detox de dados, afinal. Já estou inscrita em uma outra oficina sobre o assunto, completamente doida para excluir rastros de quem eu fui e do que desejei e não deu certo.

Segurança digital. Higiene cibernética. Fazer a linha low profile. Desintoxicar. Fugir dos robôs. Me desligar das telas que me fazem pagar as contas.

No entanto, hoje criei um blog. Porque a experiência do blog é diferente. E estamos em tempos de pandemia. Eu não faço pães, não assisto lives. O que mais eu poderia fazer?